domingo, dezembro 06, 2009

Verin

Estive em Verin hoje, essa nesga de Espanha, e recordei Torga. A verdade é que foi pequeno o rejúbilo que senti pela participação na feira do mundo. Experiências anteriores de transposição do vedado nacional trouxeram-me alguma imunidade a esse alvoroço.

Entrei num supermercado central, onde comprei algumas coisas de que precisava. Chegado à caixa de pagamento, precediam-me duas mulheres muçulmanas com véus que lhes cobriam os cabelos e partes da testa. Traziam consigo uma criança, filho de uma delas. Amanhavam, naquela altura, as compras em sacos, coordenando os movimentos com a vigília sobre a criança e a condução do carrinho de bebé. Trocavam palavras em árabe, provavelmente sobre a melhor forma de colocar os artigos nos sacos, ora querendo impedir que os enlatados danificassem a fruta, ora promovendo a organização de acordo com os locais de arrumação caseira.
Terminada a azafama dos sacos, dificultada pelas vestes que se desprendiam do pescoço e que obrigavam a gestos repetidos com a mão direita recompondo o enlace preso ao ombro, a mais velha das mulheres colocou-se para pagar. Passou à empregada do supermercado uma quantia desproporcionada face ao montante em questão naquela compra. A qualquer das duas mulheres pareciam pouco familiares contagens com euros ou cêntimos e, naquele momento, ensaiavam conversões mentais mal sucedidas entre dinares e euros. A empregada manteve a mão estendida com o primeiro montante proposto e repetiu o total a pagamento. A mulher experimentou algumas palavras em francês e estendeu também a sua mão com moedas e notas de onde a empregada de supermercado, com um sorriso, recolheu lentamente o montante em falta para cobrir a despesa.
Despediram-se com sorrisos quando algumas das minhas compras já passavam pelo leitor óptico.

terça-feira, dezembro 01, 2009

A Partir do Silêncio

Herta Muller publicou em 2009 Atemschaukel, ainda sem edição portuguesa. A vida de Herta Muller, nascida em 1953, passa-se depois da 2ª guerra mundial. Numa entrevista disponível no Courrier Internacional português e publicada no Frankfurter Allgemeine Zeitung diz que a história de Atemschaukel não é a sua história, é a história do ambiente à sua volta e a história da sua mãe.
A propósito de uma outra questão revela algumas coisas sobre a sua relação com a sua mãe, que caracteriza como uma mulher simples e com quem nunca falou sobre Atemschaukel. Diz que sua relação com a se situa noutro plano.

Este livro tem como peça fundamental o poeta Oskar Pastior, falecido em 2006, que tal como a sua mãe, viveu deportado num Gulag soviético. Oskar foi, segundo Muller, particularmente marcado pela deportação o que o impedia de falar sobre esse tempo.

Diz, finalmente, que o silêncio pode ser uma força, tal como a palavra. Cada um deve ter o direito entre falar e manter o silêncio.

O silêncio é um documento artístico, tal como palavra.