sábado, maio 03, 2008

Insensatez

Senti saudades de Torga neste fim-de-semana. Voltei a folheá-lo em busca da sua magnífica perspicácia para as coisas humanas.

"Coimbra, 11 de Março de 1973 - Não tenho emenda. Teimo na insensatez de pôr a mesma intensidade em cada acto do dia a dia, até quando sei objectivamente que não vale a pena. E acabo por me gastar da maneira mais absurda, como uma vela que continuasse a arder diante da evidência da luz do sol. Dissipo o presente em vez de o capitalizar para o futuro. Sempre disponível e sem prioridades absolutas, quero equivaler-me em todas as circunstâncias, e o resultado é andar atrasado comigo por um perdulário escrúpulo de atenção."

Quantos de nós?

The Black Swan

Leio actualmente The Black Swan, The Impact of the Highly Improbable, de Nassim Nicholas Taleb, penso que continuarei a lê-lo, apesar das críticas pouco abonatórias do New York Times (justas de resto, pelo menos no que se refere à fraude Yevgenia Krasnova no capítulo 2).
Um argumento crucial no livro, que julgo particularmente meritório, é dar-nos a perceber que aquilo que desconhecemos acerca de um qualquer tema pode ser infinitamente mais relevante do que aquilo que conhecemos. Apesar disso, tendemos a tomar decisões com base no que conhecemos e não com base no que desconhecemos. Temos até uma tendência natural para sobrevalorizar o que conhecemos em desfavor do que desconhecemos. E, tipicamente, tendemos a explicar, por exemplo, acontecimentos históricos com base no que conhecemos e não com base no que desconhecemos.
O autor alerta para o grande impacto que têm factos que desconhecemos, e, fundamentalmente, para o grande impacto que têm factos altamente improváveis para a explicação de acontecimentos, quer pessoais, quer históricos.
O título do livro, Black Swan, é uma alegoria a estes factos altamente improváveis. No hemisfério norte, todas as pessoas estavam totalmente convencidas de que todos os cisnes eram brancos. A observação sucessiva de cisnes brancos garantia esta certeza. O avistamento, com a descoberta da Austrália, do primeiro cisne negro pôs a nu, quer a fragilidade dessa assumpção, quer a fragilidade do conhecimento baseado na observação empírica. Na verdade, para que um facto tido como absoluto pela observação empírica sucessiva seja colocado em causa, basta que exista uma única observação que o contradiga.

quinta-feira, março 06, 2008

With Borges

Aos 16 anos Alberto Manguel trabalhava numa livraria de Buenos Aires, quando um escritor cego, Jorge Luís Borges, lhe propôs um emprego em part-time como leitor em voz alta. Mais tarde o jovem Manguel tornou-se um aclamado escritor e relatou este encontro, que durou vários anos, em With Borges.
Gostei especialmente das seguintes palavras que subscrevo...
"But to me, those evenings with Borges were (in the arrogance of my adolescence) not really something extraordinary, something not alien to the world of book which I always assumed was mine. If anything, it was most other conversations that seemed to me alien, uninteresting - conversations with my teachers about chemistry and geography of the South Atlantic, with my school mates about soccer, with my relatives about my exam results and my health, with neighbours about other neighbours. Instead my conversations with Borges were what, in my mind, conversations should always be: about books, and about the discovery of writers I had not read before, and about ideas that had not occurred to me, or which I had glimpsed only in a hesitant, half-intuited way that, in Borge's voice, glittered and dazzled in all their rich and somehow obvious splendour."

sábado, março 01, 2008

António

O calor e a ansiedade encharcavam a face de António. Os fios que tombavam da sua testa aliavam-se ao cansaço que lhe pesava as pestanas. O suor escorregava, em gotas, pela cana do nariz, para se acamar nas covas do seu lábio superior. Acumulava-se a água, como um bigode, por cima da boca até ser sacudida por um safanão violento vindo do volante. Outros fios escorriam-lhe nas costas provocando arrepios embaraçosos que o deslocavam no banco. Habituara-se ao suor desde que começara a tomar peso, ainda antes de partir para África, mas, aquela viagem apressada, estava a transformá-lo num pano encharcado. Uma mosca enamora-se do seu ouvido esquerdo em tangentes sonoras incómodas que procurava interromper com o esgar do pescoço na direcção da janela. As mãos melosas tentavam alcançar a alavanca para abrir o vidro, permitindo expulsar a mosca e repor alguma justiça na sua temperatura corporal.
Há mais de cem quilómetros que não falava, os pensamentos ocupavam-lhe a mente, não deixando espaço para o discurso. Ao seu lado, Júlio não se atrevia a quebrar o silêncio. Noutras circunstâncias talvez o fizesse mas, desta vez, limitava-se a refrescar-se com água e a desejar que a noite anterior nunca tivesse acontecido. Preparava, há algum tempo, uma interjeição que resolvesse aquele desconforto que se adensava mas, desistia sempre no último momento. Descrevia gestos tensos, ora arrastando as mãos sujas pelas coxas, ora coçando violentamente as patilhas até que se enchessem os ombros de caspa fina. Júlio nunca fora um tipo violento, nem mesmo com os pretos em África, a quem raramente levantava a mão, mas o álcool e uma zaragata foram suficientes para o levar à vertigem que o condenou.
Aproximava-se a fronteira, forçando a paragem para que Júlio se escondesse na bagageira do Volvo. Escondeu-se por baixo de umas mantas e de uns sacos de viagem que serviriam para o disfarce, pediu mais uma vez desculpa como um cão arrependido e envolveu-se quieto. António tornou ao volante, apesar de ter ponderado abandonar o carro naquele momento. Recordou, nesta altura, a fronteira da Namíbia, que passou vezes sem conta em direcção à Africa do Sul, o calor e a poeira davam particular credibilidade a esta recordação.
Chegado à fronteira, António parqueou o carro e meteu conversa com o fiscal que se preparava para vistoriar o carro. Abriu a bagageira, onde se distinguia um pé de Júlio enroscado por baixo dos sacos. Um choque de pânico percorreu António, que se viu perdido naquele momento. Puxou as calças para cima, num gesto nervoso que muitas vezes repetia, e retomou um ar calmo. Julgando ser o pé de um morto e temendo o pior também para si, o fiscal disse a António que seguisse.
Seguiram para Tui onde ficou Júlio, em lágrimas, com algum dinheiro para a fuga. Uma semana mais tarde, ainda com dinheiro no bolso, voltou a Portugal e entregou-se à guarda.
Desenho - Andreia Dias

domingo, janeiro 20, 2008

Cidreira

Com Torga partilho sentimentos e palavras, como as seguintes do seu Diário, que podiam ser minhas...
"Coimbra, 12 de Janeiro de 1971 - E era tão fácil ter paz! A bovina, evidentemente, e a que apetece, em boa verdade, na maioria das horas. O corpo afundado no sofá, e o espírito alapardado na conformação. Sorrir, aquiescer, abanar a cabeça, fingir... As pessoas querem-nos banais, passivas, conciliantes... Pois sejamo-lo. Não vale a pena contrariá-las, ser junto delas uma presença de constante inquietação... Mas, quando tudo parece bem encaminhado, um demónio interior borra repentinamente a pintura. Numa frase, numa interjeição, num gesto, ponho fim à comédia. Tiro a máscara, e mostro o rosto impaciente, crispado, rebelde a qualquer domesticação. Resultado: Um abismo de ressentimentos à minha volta. E dá-me vontade de morrer. Em nome de um homem abstracto que tento dignificar em mim, sacrifico o homem concreto que sou, o mais vulnerável dos mortais - que a secura duma resposta pode manter, como agora, acordado e desesperado a noite inteira -, tímido, agónico, Deus sabe até que ponto necessitado em certos momentos de saborear também a cidreira da felicidade sem história"

terça-feira, janeiro 15, 2008

Fronteiras

Torga escrevia na década de 60 com um esclarecimento invulgar para os tempos que se viviam. Muitas passagens do seu Diário mostram a sua extraordinária visão. As linhas que transcrevo são particularmente visionárias, quer para 1969, quer para os dias de hoje.

"Verin, 17 de Setembro de 1969 - O gosto que o homem tem de atravessar fronteiras! A alegria que traz estampada no rosto um amigo a quem vim mostrar uma nesga de Espanha! Nunca tinha saído de Portugal. E parece que cresceu por dentro em duas horas mais do que em todos os anos que tem. Quando se transpõe um vedado nacional com tal alvoroço e proveito, é a virtualidade da participação na feira do mundo, retesada dentro de nós, que, finalmente revelada, se expande e rejubila. Se não houvesse outros argumentos a favor da fraternidade humana, bastava este."

domingo, janeiro 06, 2008

Estender a Mão ao Mundo

Agrada-me em Obama a mistura das suas raízes e a forma como tranporta essa mistura para o seu discurso. Estou fortemente convencido de que será o próximo presidente dos Estados Unidos, ou, pelo menos, tenho essa esperança. O que penso sobre a importância desta eleição está resumido nas palavras de Peter Lipovac, um professor reformado, entrevistado pelo Expresso durante um comício no Iowa:
"Consegue imaginar o que será um homem chamado Barack Hussein Obama sentado à mesma mesa com árabes? Consegue imaginar o que será um homem negro, abandonado pelo pai, a conferenciar com os países que nos desprezam? Não vê como ele vai poder estender a mão a pessoas de todo o mundo?"

domingo, dezembro 30, 2007

Fernando

Fernando apaixonara-se recentemente por um livro, era algo que lhe acontecia recorrentemente. Como era hábito, durante estes amores correspondidos, insistia em reconhecer as personagens que o enamoravam nos seus vizinhos. Ontem tinha encontrado Richard, o poeta, no vizinho do terceiro andar, de quem a doença parecia também estar a tomar conta. E, recentemente, encontrara Laura Brown em Helena do bloco B. Encontrou em Helena a infelicidade disfarçada de Laura e adivinhou que estivesse naquele momento a ler Mrs. Dalloway deitada na cama de um Hotel, preparada para acabar com tudo.
Adorava viajar, prazer que lhe havia sido furtado pelo nascimento do primeiro filho, contentava-se agora com pequenos passeios solitários ao Domingo de manhã, pela fresca, para que se não atrasasse para o almoço familiar. Saiu cedo para desfrutar da cadência cardíaca do mar de Vila do Conde ao desfazer-se nas rochas. O mar estava agitado e formava finos carneiros no areal, o compasso ritmado das ondas, perto do castelo, convidava ao mergulho no abismo a que, por certo, Virgínia não resistiria em um dos seus dias maus. Queria cansar as pernas naquele dia, ia em busca de Clarrisa, Sally e Louis por entre os veraneantes tardios de Outubro. Os vendedores desfraldavam os toldes baptizando quem passava com as águas acumuladas da geada, procurava uma florista onde pudesse esperar Clarissa antes da festa. Avistou-a ao longe, os cabelo claros, a pele luminosa de saúde e a cesta de vime para compras permitiram a sua identificação imediata. Imaginava-a já a sair da florista com uma braçada de flores e com o chapéu a cair-lhe tocado pela brisa. Passou pela florista sem entrar, talvez estivesse atrasada para encontrar Richard.
Regressou para o almoço, causava-lhe fastio aquela reunião familiar, onde pontificavam os parentescos figurões e faisões herdados de sua mulher. Por certo encontraria Rodrigo, cantor de câmara, que não se fazia rogado em contar a opulência da sua vida de artista, que contrastava com o cinzento da sua face. Cruzou-se com Helena ao chegar a casa, deslizava apressadamente nos paralelos da rua, esquivando-se aos carros mal estacionados, vinha lívida do beijo roubado a Kitty na sua cozinha.
Sentou-se, desejando falar e comer pouco, não pretendia fazer durar aquele período de sofrimento. Por momentos viu entrar na sala uma moça de seios trementes, esmagando o soalho, ostentando uma travessa fumegante e imaginou-se em Tormes preparado para partilhar com Jacinto um arroz de favas. A sua boca aguada secou-se ao ver outro conteúdo na travessa e por terem sumido os seios fartos à moça servente.

sábado, dezembro 29, 2007

Helena

Perguntou-me desdenhoso se sempre jantávamos naquele dia. Atrasei o jantar propositadamente, dava-me certo prazer vê-lo roer-se de fome enquanto rondava a cozinha impaciente, afinal, este era um acto de tortura a que julgava ter direito após anos de solidão acompanhada. Cozinhei com especial esmero naquele dia, pensei cuidadosamente no seu prato preferido, e bacalhau era o prato certo para uma ocasião tão solene. Demolhei-o durante três dias, trocando-lhe a água no final do primeiro, escolhi a mais rendilhada travessa assadeira que me tinham dado como prenda nesse ano, reguei abundantemente as mais altas postas com o mais puro azeite depois de as ter colocado sobre finas rodelas de cebola e tomate. Rodeei as postas de salsa e louro, ervas que permitem um gosto que ele muito apreciava, cozi pequenas batatas durante a tarde que coloquei na assadeira para que alourassem, levei tudo ao forno e esperei. Durante o tempo de espera desfiz duas mangas com leite condensado e gelatina seguindo a receita de mousse de manga da minha mãe. Pus a mesa com o nosso serviço e, no centro, coloquei um imponente arranjo floral que comprei nessa manhã no mercado da fruta.
Detive-me alguns momentos a observá-lo enquanto inalava à força as últimas nuvens de fumo do seu cachimbo asqueroso, dirigi-me à cozinha e esfarelei 20 dos meus comprimidos para dormir com a ajuda do coto da faca de desmancho. Juntei-os ao jarro de vinho, não bebi vinho naquela noite, não o fazia regularmente pelo que não levantei suspeitas. Comeu alarvemente com aquela forma de sorver os alimentos que me enoja, bebeu também todo o jarro de vinho. No final da refeição sentia-se cansado e foi deitar-se. Vesti o casaco, bati a porta e nunca mais voltei.
António ouviu pacientemente o relato de Helena, engasgando-se com o salivar excessivo a que não estava habituado nestas inquirições. Todo aquele discurso o inquietou, e nem a sua vasta experiência como inspector impediu a sua surpresa, principalmente tendo em conta que o corpo que estava nesse momento na cave do edifício tinha doze facadas no peito.
Nesse dia, António comprou flores que levou para casa, e deitou no caixote do lixo o cachimbo que usava desde os tempos da tropa.

segunda-feira, outubro 29, 2007

I Sing of Change

Transcrevi este poema de um painel no metro de Londres enquanto viajava entre Paddington e Piccadilly.

"I sing
of the beauty of Athens
without its slaves

Of a world free
of kings and queens
and other remnants
of an arbitrary past

Of earth
with no sharp north
or deep south
without blind curtain s
or iron walls

Of the end
of warlords and armouries
and prisons of hate and fear

Of deserts treeing
and fruitingafter the quickening rains

Of the sun radiating ignorance
and stars informing
nights of unknowing

I sing of a world reshaped"

Niyi Osundare (1947)
African Poems on the Underground

Memórias de Adriano

Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, é uma longa carta ditada pelo Imperador Adriano ao jovem Marco Aurélio, que viria a suceder-lhe no trono, numa altura em que a sua morte se aproximava. É particularmente inspiradora a seguinte passagem:
"A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros."

O Escritor

Yashima Khadra é o pseudónimo sob o qual escreve Mohammed Moulessehoul. Moulessehoul nasceu em Orão em 1955 e foi, até há pouco tempo, militar de carreira do exército Argelino. A sua escrita percorre os conflitos recentes no Médio Oriente com uma lucidez e um equilibrio invulgares, é assim em O Atentado e em As Sirenes de Bagdad, ambos publicado em português pela Bizâncio. O seu pseudónimo feminino permitiu-lhe escapar à censura militar, em O Escritor, Moulessehoul revela a sua identidade, conta a sua história, descrevendo-a como a fatalidade de ser escritor:
"O sofrimento não me aterrava; despertava-me, fazia-me tomar consciência da minha singularidade; eu era aquele que sabia ver, que esta va atento à dor dos camaradas. E essa coisa, que se fortalecia em mim, habitava-me justamente para me assistir nessa vocação. Não foi senão ao ler O Pequeno Polegar que a descarga se abateu sobre mim, como uma revelação que bate à porta. Era aquele o dom divino: o verbo. Nascera para escrever! Ao abrir o belo livro, ao percorrer as suas páginas de esplêndidas ilustrações, plenas de fascínio, fiquei irremediávelmente apanhado: escrever livros.
Devorei outros contos com um apetite insaciável: Branca de Neve, O Capuchinho Vermelho, A Bela Adormecida, as Fábulas de La Fontaine. Era feérico. Mas o meu fascínio, o verdadeiro, não era nem pelas histórias nem pelas personagens ou pelo talento fantástico dos desenhadores. Só o descobri ao iniciar-me, eu próprio, na escrita: estava fascinado pelas palavras... aquela junção de caracteres mortos que, entre uma maiúscula e um ponto, ganhavam de repente vida, tornavam-se frases, conjuntos, aquiriam força e espírito. Soube de imediato aquilo que mais queria no mundo: uma pena ao serviço da literatura, essa sublime bondade humana que não tem igual senão na sua vulnerabilidade; essa bondade suprema que continua a ser, ainda hoje, a última fortificação da nossa salvação, o último bastião contra a animalidade, e que, se alguma vez viesse a ceder, sepultaria sob os seus escombros todos os sóis do mundo, e então, boa-noite..."

sábado, março 03, 2007

Crónica de uma Morte Anunciada

Pedro e Pablo Vicario saíram de casa naquela noite determinados em matar Santiago Nassar, o responsável pela desonra da irmã dos dois gémeos. Fizeram questão de anunciá-lo a quem os quis ouvir, como exige este motivo para jura de morte. Passaram pelo mercado da carne onde afiaram as facas e informaram Faustino Santos da sua intenção, disseram-no também a Clotilde Armenta e a todos quantos estavam na leitaria. Em pouco tempo toda a povoação sabia do que estava prestes a acontecer, mas nem por isso fizeram o que fosse para evitar que os irmãos Vicario atingissem o seu objectivo.
Em parte não o fizeram porque acreditavam na vingança da honra de uma irmã como um motivo moralmente justo para a sentença de morte, foram por isso cúmplices silenciosos do assassinato.
Em Portugal passam-se fenómenos semelhantes ao do romance de Gabriel Garcia Marquez. Não porque vejamos a morte como única forma de vingar a desonra, nesse aspecto somos menos efervescentes do que os sul-americanos.
Existem, no entanto, crimes que por mais que nos sejam anunciados diariamente, ou até garbosamente assumidos pelos próprios, nunca verão culpados verdadeiramente punidos no nosso país, crimes como a corrupção nas autarquias ou a fraude de resultados desportivos no futebol. Na verdade, em Portugal a maioria da população não vê estes crimes como moralmente errados, ou pelo menos não lhes confere uma condenação moral relevante, sendo este o principal motivo para a sua impunidade.
Desta forma, Pedro e Pablo Vicario poderão continuar a sair de casa exibindo as suas facas e dizendo ao que vão…

domingo, janeiro 14, 2007

O Muro

George W. Bush promulgou, no dia 26 de Outubro, a lei que autoriza a construção de um muro de protecção ao longo da fronteira entre os Estados Unidos e o México. O objectivo deste muro é limitar a imigração ilegal uma vez que passará a ser mais caro e mais perigoso atravessar ilegalmente a fronteira que separa os dois países.
Esta notícia fez-me recordar o livro Fair Play - What Your Chlid Can Teach You About Economics, Values, and the Meaning of Life de Steven E. Landsburg que me foi emprestado há algum tempo por uma amiga. Este autor celebrizou-se através a sua publicação anterior The Armchair Economist e através a sua coluna Everyday Economics na Slate magazine.
A propósito da sua posição contra o proteccionismo, Landsburg conta como a sua filha Cayley, ainda uma criança, lhe perguntou a razão porque devemos tratar de forma diferenciada um trabalhador fabril de Detroit e um trabalhador fabril da cidade do México.
Na verdade não parece existir qualquer razão moral para uma diferenciação de tratamento apenas baseada no local de nascimento e em linhas fronteiriças imaginárias.

"My daugther knows that people are created equal, and that nobody's right to prosper should be altered by being born on the wrong side of an imaginary national boundary line. It would never occur to her to care more about an autoworker in Detroit that about an autoworker in Tokyo or Mexico city"

A nacionalidade apresenta-se cada vez mais como uma ferramenta de totalitarismo totalmente inaceitável...

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Auto-Regulação e Desenvolvimento

Há alguns meses encontrei-me com um amigo dono de uma empresa de calçado. Falámos acerca da sua recente visita à Índia. O objectivo dessa visita foi profissional pelo que falámos um pouco sobre as condições de trabalho industrial nesse país. Contou-me sobre as deficientes condições das infra-estruturas industriais, sobre os horários de trabalho intensos, sobre as remunerações miseráveis e sobre o trabalho infantil massificado. Nada do que que me contou foi uma absoluta novidade mas o seu relato foi particularmente marcante, provavelmente por ser composto por imagens contadas por uma pessoa que me é próxima e por se basear em memórias ainda frescas da sua viagem.
Esta nossa conversa foi concluída com uma reflexão que julgo importante, disse-me este meu amigo que, provavelmente, algumas pessoas ocidentais ao terem noção das condições em que algumas peças do seu vestuário são fabricadas teriam repulsa em vesti-las ou comprá-las.
Um artigo recente do Internacional Herald Tribune, publicado esta semana no Courrier Internacional, prova-nos que as próprias marcas ocidentais são sensíveis a esta reflexão. Este artigo descreve a rotina diária de um auditor de conformidade social na China que trabalha para grupos americanos e europeus interessados em ter uma imagem fiel das condições de produção dos seus produtos nestes países. As auditorias de conformidade social surgiram nos anos 90, no âmbito de movimentos de protesto ocorridos nos Estados Unidos. Empresas como a Nike e a Wall-Mart começaram a ser pressionadas por grupos representativos dos seus próprios clientes no sentido de melhorarem as condições de trabalho dos seus subcontratados asiáticos.
Após vários escândalos, torna-se claro que as empresas ocidentais não podem permitir-se a este tipo de publicidade. Começa a verificar-se um fenómeno que este artigo designa de paradoxal, as empresas capitalistas ocidentais empenham-se em melhorar as condições laborais na China.

domingo, outubro 29, 2006

Inconveniente

No filme Uma Verdade Inconveniente, Al Gore inicia a sua apresentação recordando um episódio da sua infância. Este episódio passa-se no seu sexto ano durante uma aula de geografia. Nesta aula, o professor de Gore mostrou aos seus alunos o mapa do mundo. Enquanto o mostrava um dos colegas de Gore levantou o braço e apontou primeiro para a costa este da América do Sul e depois para a costa ocidental de África perguntando se em algum momento estes dois pedaços enormes de terra teriam estado unidos. A sua questão estava relacionada com o recorte semelhante das faixas costeiras destes dois continentes. Como resposta o professor terá dito que era evidente que não, e que essa era a coisa mais ridícula que já alguma vez tinha ouvido. Por esta altura a teoria das placas tectónicas não era universalmente aceite em termos científicos e era desconhecida da maior parte das pessoas. O professor de Gore partiu de um pressuposto que para ele era inquestionável, os continentes são tão grandes que, obviamente, não se deslocam. Pois, na verdade, os continentes deslocam-se e em tempos estiveram unidos.

Al Gore termina esta ilustração com uma frase de Mark Twain:

“It ain’t what you don’t know that gets you into trouble. It’s what you know for sure that just ain’t so.”

Só a inconveniência nos libertará da armadilha apresentada por Mark Twain…

It Is Our Time to Rise Again to Secure Our Future

É desta forma que Al Gore termina o seu livro Uma Verdade Inconveniente.
Com Uma Verdade Inconveniente Al Gore tem dois objectivos e é bem sucedido em ambos. Em primeiro lugar, esforça-se por fazer uma explanação clara, estruturada e convincente acerca da urgência do problema do aquecimento global. E em segundo lugar, apresenta este quadro como reversível, interpelando-nos a agir no sentido desta reversão. Este segundo objectivo é particularmente responsabilizador da geração que actualmente habita o nosso planeta. Gore refere que o empenho ambiental na resolução do problema do aquecimento global definirá moralmente a nossa geração.
Assisti ao filme há algumas semanas, a sala estava cheia e no final fui surpreendido pelos aplausos do público. Questiono-me sobre a leitura que devo dar a estes aplausos. Devo considerá-los um indicador da identificação com o problema apresentado? Serão um indicador da nossa consciência ambiental e do nosso empenhamento na resolução deste problema? O futuro irá responder-nos a estas questões e seremos julgados moralmente por isso...

sexta-feira, outubro 06, 2006

Se Isto É Um Homem

"Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara."

texto inicial do livro "Se Isto É Um Homem" de Primo Levi

quinta-feira, setembro 21, 2006

Se Isto É Um Homem

Em "Se Isto É Um Homem" Primo Levi relata o ano da sua vida passado no campo de concentração de Auschwitz, onde foi testemunha e vítima dos horrores da segunda grande guerra mundial. Acredito convictamente na verdade dos testemunhos de Primo Levi e por isso me inquietam declarações negacionistas do Holocausto. Inquietam-me também as versões alternativas dos acontecimentos de 11 de Setembro que considero terem características negacionistas equivalentes. De acordo com estas versões terá sido a própria administração norte americana a planear e executar o ataque às torres gémeas. Parece-me adequado perguntar, perante estes novelos conspirativos, que conspiração terá estado por trás dos ataques de 11 de Março em Madrid e de 7 de Julho em Londres. Terão sido planeados também pelos americanos? Pelo PSOE de Zapatero ou pelo PP de Aznar? Pelos Trabalhistas ou pelos Conservadores ingleses?

domingo, setembro 10, 2006

The Next Attack

Num artigo da The Atlantic Monthly publicado pelo Courrier Internacional são explicadas as principais razões para não ter existido outro grande atentado em solo americano após o 11 de Setembro.

"O patriotismo da comunidade muçulmana americana foi grosseiramente subestimado", desta forma, ao contrário do que acontece na Europa, o processo de recrutamento de células americanas de origem muçulmana foi um fracasso.
"Os imigrantes árabes e muçulmanos instalados nos EUA seguiram o mesmo percurso que outros grupos étnicos americanos bem assimilados e são fundamentalmente diferentes da classe muçulmana desfavorecida e mal integrada da maior parte dos países da Europa. (...) a Europa Ocidental acolhe uma população muçulmana que representa um pouco mais do dobro da comunidade estabelecida nos EUA. Mas a maior parte das medidas que provocam descontentamento e agitação - detenções, motins, actos de violência ligado à religião - são dez a quinze vezes mais elevadas na Europa do que nos EUA. O rendimento médio dos muçulmanos em França, na Alemanha ou na Grã-Bretanha é inferior ao do conjunto da população desses países, enquanto que o rendimento médio dos árabes americanos é superior ao rendimento médio americano. Em média possuem também mais empresas e mais diplomas universitários do que o conjunto dos americanos."

De acordo comeste artigo, a principal defesa anti-terrorista dos EUA é a inclusão social dos muçulmanos, "comunidade que foi, no seu conjunto, insensível ao vírus jihadista"...