sábado, setembro 06, 2008

Bergotte

A escrita de Proust é imensamente bela. A palavra "bela" utilizada desta forma soa a uma banalidade, é certo. Em todo caso, julgo ser o adjectivo adequado para a sua descrição sucinta. Cada frase, cada argumento, usa um estilo que, é em primeiro lugar, belo. Poderão utilizar-se outros adjectivos posteriores, poderá destacar-se a subtileza das suas narrações, a ampla compreensão das personagens ou a expressão intensa das emoções, que são as suas, mas nunca sem começarmos for falar de beleza.

Em "Do lado de Swan", Proust fala da leitura de Bergotte, autor com que se entusiasmara na altura, de uma forma que eu poderia utilizar para descrever a minha experiência de leitura de Proust. Fá-lo-ia de uma forma imensamente menos competente.

"Nos primeiros dias, como uma ária musical que viremos a adorar, mas que ainda não distinguimos, não me apercebi daquilo que havia de amar tanto no seu estilo. Não conseguia largar o romance dele que estava a ler, mas julgava-me interessado unicamente no assunto, como nos primeiros momentos de amor em que vamos todos os dias procurar uma mulher numa reunião, num espectáculo, julgando-nos atraídos pelos prazeres que estes oferecem. Depois notei as expressões raras, quase arcaicas que ele gostava de empregar em certos momentos, quando uma onda oculta de harmonia, um prelúdio interior, agitava o seu estilo; e era também nesses momentos que ele se punha a falar do "sonho vão da vida", da "inesgotável torrente das belas aparências", do "tormento estéril e delicioso de compreender e amar", das "comoventes efígies, que enobrecem para sempre a fachada venerável e encantadora das catedrais", que ele exprimia toda uma filosofia, nova para mim, através de imagens maravilhosas que não pareciam ter despertado aquele canto de harpas que então se erguia, dando ao seu acompanhamento algo sublime. Uma dessas passagens de Bergotte, a terceira ou quarta que isolei do resto, causou-me uma alegria incomparável à que eu sentia com a primeira, uma alegria que julguei sentir numa região mais profunda de mim mesmo, mais uma, mais vasta, de onde os obstáculos e as separações pareciam ter sido retirados. É que, reconhecendo então o mesmo gosto pelas expressões raras, a mesma efusão musical, a mesma filosofia idealista que já das outras vezes, sem que eu me desse conta, tinha sido a causa do meu prazer, deixei de ter impressão de estar em presença de um trecho particular de um certo livro de Bergotte, traçando à superfície do meu pensamento uma figura puramente linear, mas antes do "trecho ideal" de Bergotte, comum a todos os seus livros e ao qual todas as passagens análogas que com ele vinham confundir-se teriam dado uma espécie de espessura, de volume, com que o meu espírito parecia ampliado."

Levantado

Tenho apresentado uma certa predilecção por escritores suicidas. Não os procuro, acontece de os ler e de me agradarem, pelo que repito visitas aos seus escritos.
Séneca viveu nos primeiros anos d.c., tendo-se suicidado em 65. Cartas a Lucílio é a sua obra mais conhecida. Foi concluída já na última fase da sua vida, tornando-a ainda mais interessante. É um tratado de reflexão ética e moral e um normativo teórico comportamental que reflecte o seu pensamento . Na carta 13, Séneca elogia a resiliência de Lucílio:

"Um atleta que nunca foi ferido é incapaz de afrontar o combate de ânimo alto. Só aquele que viu correr o próprio sangue, que sentiu os dentes rangerem sob os golpes, que, lançado por terra, suportou sobre o corpo o peso do adversário sem, embora abatido, nunca deixar abater o ânimo, só aquele que se ergue com mais energia de cada vez que é derrubado pode descer à arena com esperança de vencer."

domingo, agosto 24, 2008

Cafeína

Uma visita ao blog de um amigo recordou-me este texto que serve de prefácio ao romance A Arma dos Juízes de Clara Pinto Correia. O texto é magnífico e é por isso que o reproduzo abaixo na totalidade. A cada releitura que faço invade-me uma vontade imensa de tomar um bom café na baixa do Porto.

"Seja numa bica, num chá, ou numa bebida gelada, mesmo nas bebidas aparentemente já tão distanciadas do conceito original como a Coca-Cola, a cafeína move-se com facilidade a partir do estômago e dos intestinos para o fluxo sanguíneo, e daí segue para os órgãos, e em pouco tempo já se instalou em praticamente todas as células do organismo. É por isso que este alcalóide psicoactivo é um estimulante tão perfeito. A maioria das substâncias não conseguem atravessar a barreira sangue-cérebro, que é um mecanismo de defesa do corpo destinado a evitar a entrada no sistema nervoso central de vírus ou de toxinas. Mas a cafeína atravessa esta barreira com muita facilidade. Ao fim de cerca de uma hora, atingiu o máximo da sua concentração no cérebro, e, uma vez aqui instalada, faz um grande número de coisas - acima de tudo, bloqueia a acção da adenosina, o neuromodulador que nos faz sentir-nos ensonados, que faz descer a nossa tensão arterial, e que modera os nossos batimentos cardíacos. Depois, tão depressa como se acumulou no cérebro e nos tecidos, a cafeína desaparece - e é por isso que é uma droga tão segura. Nunca se demonstrou conclusivamente que nenhuma doença série esteja ligada ao consumo de cafeína. Com estes poderes mágicos, a cafeína teve a capacidade de infiltrar todos os aspectos da nossa vida, influenciando directamente a nossa cultura. Mais ainda, conseguiu criar novas culturas. O melhor exemplo será certamente a reputação do café como a «bebida dos pensadores». Esta conotação data da Europa do século XVIII, onde os cafés desempenharam um papel de primeira linha no espírito igualitário e integracionista que tinha então começado a varrer o continente. Estes cafés espalharam-se primeiro por Londres, alarmando de tal maneira o rei Carlos II que tentou bani-los. Em vão. Por volta de 1700, já existiam centenas de cafés em Londres, inundando a cidade de um novo espírito subversivo. A seguir o movimento alastrou até Paris, onde, no fim do século XVIII, os cafés se contavam às centenas - incluindo os famosos Café de la Régence e o seu vizinho Café Royal, que contavam entre os seus clientes Robespierre, Napoleão, Voltaire,Victor Hugo, Théophile Gautier, Rousseau, e o duque de Richelieu. Anteriormente, quando os homens se juntavam para falar em lugares públicos, faziam-no em bares, que serviam nichos sócio-económicos específicos e que, devido ao álcool que serviam, criavam uma forma de discurso específica. Os novos cafés, pelo contrário, atraíam muitas classes e profissões diferentes, e funcionavam como estimulantes, e não como depressantes. Daqui resultou muito provavelmente um grande estímulo para a arte da conversa se tornar uma fonte de inspiração literária, e para o despontar de uma nova geração das letras. Note-se, de caminho, que nos cafés originais toda a gente fumava, e que a nicotina também tem o seu efeito fisiológico preciso. Modera otemperamento, e expande a atenção. E, ainda mais importante, duplica a taxa de metabolização da cafeína. Ou seja, permite-nos beber duas vezes mais café do que o que beberíamos sem fumar Por outras palavras, o café original era um sítio onde homens de todas as espécies podiam sentar-se o dia inteiro; o tabaco que fumavam permitia-lhes tomar café todo o dia; e o café que bebiam permitia-lhes falar e pensar todo o dia. Foi desta conjugação espantosa de droga e de lugar que nasceu o Iluminismo. Depois o café expandiu-se destes santuários precisos para a casa de cada um, quando o café do Brasil começou a inundar o Ocidente a partir de 1820. Este dilúvio de cafeína deve ter sido instrumental no desencadear da Revolução Industrial: foi o café que permitiu que números impressionantes de pessoas passassem a poder coordenar os seus horários de trabalho por forma a estarem despertos e cheios de energia à hora marcada para iniciarem os seus turnos laborais, e para depois os continuarem enquanto fosse preciso. Não devemos esquecer que, até ao século XVIII, a maioria dos ocidentais bebia cerveja quase continuamente, e era com sopas de cavalo cansado que as pessoas começavam o dia. Cito apenas, a título de exemplo, uma receita de pequeno-almoço vinda da Alemanha:«Aquecer a cerveja num pote. Numa tigela separada bater dois ovos. Juntar um bocado de manteiga à cerveja quente. Juntar alguma cerveja fria e mexer bem para arrefecer, e depois juntar os ovos. Juntar uma pitada de sal, e bater bem para não talhar.»A partir do século XVIII, estas receitas foram substituídas por uma boa almoçadeira cheia de café. De certa forma, podemos explicar a Revolução Industrial enquanto consequência inevitável da transição súbita de um mundo onde de repente as pessoas, ao acordar preferiam estar alerta a estar embriagadas. Até esta altura, o trabalho intelectual tinha estado sempre associadoao lazer Esta tradição persistiu pelo menos desde que Arquimedes descobriu o princípio da alavanca enquanto estava a tomar banho. Como café, o génio intelectual passou a ser antes definido por aquela frase famosa que tanto é atribuída a Edison como a Einstein, e que provavelmente é mesmo apócrifa, «um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração». No mundo industrializado, o trabalho da mente passou a ser tão árduo como o trabalho manual. Durante o século XX, as profissões também se alteraram em consequência, como fica bem exemplificado na medicina, que aproveitou o café para introduzir na cena os ordálios sucessivos das 24 horas de banco. O heroísmo intelectual passou a ser uma questão de resistência. Outro bom exemplo: a vida do físico Richard Feynman, tal como descrita na biografia «Genius» de James Gleick. «O dia de Feynmman começava às 8.30 e acabava quinze horas depois. Por vezes ele não podia sair do centro de computadores de todo. Uma vez trabalhou 31 horas de seguida, e no dia seguinte descobriu que um erro cometido poucos minutos depois de se ter ido deitar tinha empatado a equipa inteira. A rotina não permitia mais que umas escassas e curtas pausas.» Agora, estas performances sobre-humanas de Feynman revelam um talento natural maior que o de qualquer um dos seus predecessores? Ou será simplesmente devido ao facto de Feynman poder beber muito mais café? No livro The Man who Loved Only Numbers, Paul Hoffman descreve o lendário matemático Paul Erdos que «trabalhava turnos de dezanove horas, mantendo-se fortificado com de 10 a 20 mg de benzedrina ou ritalina, bicas curtas, e comprimidos de cafeína, defendendo com carinho e insistência que um matemático é uma máquina de converter café em teoremas». Uma vez, um amigo apostou quinhentos dólares com Erdos que ele não conseguiria passar um mês sem anfetaminas. Erdos aceitou a aposta e ganhou. Mas, durante o seu período de abstinência, sentiu-se incapaz de fazer qualquer trabalho sério. «Fizeste a matemática retroceder um mês», disse ele ao amigo quando recebeu os quinhentos dólares. Erdos conhecia muito melhor a sua consciência alterada do que a sua consciência natural, e este tipo de síndroma pode aplicar-se mais ou menos a toda a sociedade em geral. Uma parte do que significa ser humano na idade moderna implica que temos que construir os nossos estados mentais e cognitivos não apenas de dentro para fora, com pensamentos e intenções, mas também de fora para dentro, com aditivos químicos. Neste sentido, personalidade moderna é uma criação sintética: é cuidadosamente regulada, e modulada, e doseada, com cafeína, para que possamos estar sempre acordados e alerta, e concentrados no nosso foco preciso de cada momento. Quase de certeza que qualquer um de nós, para ganhar uma aposta, conseguiria estar um mês sem ingerir cafeína. Mas o que é que adiantaríamos com isso? Os advogados não conseguiriam exercer durante todas as suas horas de expediente. Os jovens médicos demorariam muito mais tempo a treinar-se. Os físicos, provavelmente, ainda estavam a tentar inventar a bomba atómica no deserto do Novo México. O mundo inteiro andaria um mês para trás. Claro que é um bocado inquietante pensarmos assim, a frio, que a personalidade moderna é de característica sintética. Quando pensamos em construir novas identidades a partir de meios químicos, pensamos nas drogas duras, e não na cafeína. Timothy Leary costumava usar omesmo tipo de discurso a propósito do LSD, e provavelmente a razão pela qual a sua revolução nunca chegou a ir a lado nenhum foi a maioria dos mortais ter achado aquela ideia do «tune in, turn on, drop out» um bocado desagradável. Ora aqui estava um verdadeiro shaman, um verdadeiro visionário - e no entanto, se a sua consciência era assim tão fabulosa, por que é que o homem parecia tão determinado a alterá-la? E, mais importante ainda, o que é que se esperava que agente encontrasse quando fizesse o tal «tune in»? Davam-nos algumas pistas, como cores psicadélicas e leituras profundas do «Lucy in the Sky with Diamonds», mas há que admitir que isto era um bocado vago. Se era suposto a gente recriar-se, era bom que nos dissessem em que é que íamos transformar-nos. A cafeína é a droga que funciona melhor e se mostra mais útil para responder exactamente a esta pergunta, em qualquer uma das formas em que se nos ofereça. É um estimulante que bloqueia a acção da adenosina, e aparece numa grande variedade de formas, cada uma delas com a sua lenda precisa associada, uma História feita de fragmentos históricos e imaginários recentes, que transforma cada acto diário de bloquear a adenosina numa declaração de intenções com sentido e propósito. Ponham a cafeína dentro de uma lata encarnada, e é um divertimento refrescante. Ponham-na a abrir lentamente dentro de um bule de chá, e é um convite ao romance e ao decoro. Extraiam-na directamente de uns grãos escuros, e é uma fonte mágica de potência e energia. E fixem bem esta passagem, do livro «The World of Caffeine», de Bealer e Weinberg:«Havia um emigrantezinho russo, Trotsky de seu nome, que durante a Primeira Guerra Mundial tinha o hábito de ir jogar xadrez todas as noites para o Café Central de Viena. Era um refugiado russo típico, que falava demais mas parecia absolutamente inofensivo, até certo ponto uma figura patética aos olhos dos vienenses. Um dia em 1917 um oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Áustria entrou a correr no gabinete do ministro, arfante e excitado, e disse ao seuchefe: "Excelência... Excelência... A Revolução rebentou na Rússia! "O ministro, menos excitado e menos crédulo que o seu subordinado, rejeitou esta pretensão tão disparatada e respondeu calmamente: "Vá-se embora... A Rússia não é um sítio onde rebentem revoluções. Aliás, pelo amor de Deus, quem é que seria capaz de fazer uma revolução naRússia? O Herr Trotsky, do Café Central?»Há coisas que às vezes os ministros não sabem. Por exemplo, que, se derem a um homem suficiente cafeína, ele é capaz de tudo."


Prof Frederico Guilherme de Castro in «Conscioustiess: Biology of Mystery?», Camberra University Press, Camberra, Austrália, in prep

sábado, julho 26, 2008

Il doppio legame

Foi desaparecendo tudo a pouco e pouco, confessou-me Lúcia, mais calma naquela tarde. Senti-o esfumar-se diante de mim como uma névoa se esfuma.
Lúcia coçava o braço esquerdo e fazia ranger os dentes enquanto lhe transmitia palavras de conforto que tinha dificuldade em articular. Inquietei-me também, solidário, e oscilei na cadeira de uma forma calculada. Os seu olhar parecia perder-se quando interrompia o discurso, para retomar o meu quando voltava a contar-me o que sentia.
Recordo-me de quando começaram a rarear-lhe as palavras, disse-me, e de como perdeu força a sua voz, que passou a apenas murmurar na maior parte das ocasiões. Desapareceram também os olhares, cada dia mais murchos, pesados e vazios. E os gestos, que se fizeram meros acenos
Desde essa altura, sombrio, passava os dias a escrever. Eram textos que nunca me mostrou, ao contrário do que fazia tipicamente com as suas publicações, fossem literárias ou científicas. Estes textos pareciam vazar-lhe a alma, sorver-lhe os sentidos como nunca havia sucedido anteriormente.
Os mesmos textos que o salvaram da loucura, mais do que o exército russo, consumiam-lhe, em vingança, agora tudo. Penso que nunca o compreendi totalmente. A maior parte dos que o podiam compreender tinham morrido há muito, num local onde também ele estava destinado a morrer.
O sentimento de culpa irracional por ter sobrevivido sempre o perseguiu. Não lhe davam descanso, as cumplicidades e os acasos felizes desta sobrevivência e pesavam-lhe o rosto e o passo. Nos últimos dias, estas recordações injustas pareciam encurralá-lo de medo.
Encontrei-o caído nas escadas, dizem que se matou, rezo para que não tenha sido assim, seria a pior das coisas.

Trecho da minha entrevista (que nunca aconteceu) a Lúcia Levi.

sábado, maio 03, 2008

Insensatez

Senti saudades de Torga neste fim-de-semana. Voltei a folheá-lo em busca da sua magnífica perspicácia para as coisas humanas.

"Coimbra, 11 de Março de 1973 - Não tenho emenda. Teimo na insensatez de pôr a mesma intensidade em cada acto do dia a dia, até quando sei objectivamente que não vale a pena. E acabo por me gastar da maneira mais absurda, como uma vela que continuasse a arder diante da evidência da luz do sol. Dissipo o presente em vez de o capitalizar para o futuro. Sempre disponível e sem prioridades absolutas, quero equivaler-me em todas as circunstâncias, e o resultado é andar atrasado comigo por um perdulário escrúpulo de atenção."

Quantos de nós?

The Black Swan

Leio actualmente The Black Swan, The Impact of the Highly Improbable, de Nassim Nicholas Taleb, penso que continuarei a lê-lo, apesar das críticas pouco abonatórias do New York Times (justas de resto, pelo menos no que se refere à fraude Yevgenia Krasnova no capítulo 2).
Um argumento crucial no livro, que julgo particularmente meritório, é dar-nos a perceber que aquilo que desconhecemos acerca de um qualquer tema pode ser infinitamente mais relevante do que aquilo que conhecemos. Apesar disso, tendemos a tomar decisões com base no que conhecemos e não com base no que desconhecemos. Temos até uma tendência natural para sobrevalorizar o que conhecemos em desfavor do que desconhecemos. E, tipicamente, tendemos a explicar, por exemplo, acontecimentos históricos com base no que conhecemos e não com base no que desconhecemos.
O autor alerta para o grande impacto que têm factos que desconhecemos, e, fundamentalmente, para o grande impacto que têm factos altamente improváveis para a explicação de acontecimentos, quer pessoais, quer históricos.
O título do livro, Black Swan, é uma alegoria a estes factos altamente improváveis. No hemisfério norte, todas as pessoas estavam totalmente convencidas de que todos os cisnes eram brancos. A observação sucessiva de cisnes brancos garantia esta certeza. O avistamento, com a descoberta da Austrália, do primeiro cisne negro pôs a nu, quer a fragilidade dessa assumpção, quer a fragilidade do conhecimento baseado na observação empírica. Na verdade, para que um facto tido como absoluto pela observação empírica sucessiva seja colocado em causa, basta que exista uma única observação que o contradiga.

quinta-feira, março 06, 2008

With Borges

Aos 16 anos Alberto Manguel trabalhava numa livraria de Buenos Aires, quando um escritor cego, Jorge Luís Borges, lhe propôs um emprego em part-time como leitor em voz alta. Mais tarde o jovem Manguel tornou-se um aclamado escritor e relatou este encontro, que durou vários anos, em With Borges.
Gostei especialmente das seguintes palavras que subscrevo...
"But to me, those evenings with Borges were (in the arrogance of my adolescence) not really something extraordinary, something not alien to the world of book which I always assumed was mine. If anything, it was most other conversations that seemed to me alien, uninteresting - conversations with my teachers about chemistry and geography of the South Atlantic, with my school mates about soccer, with my relatives about my exam results and my health, with neighbours about other neighbours. Instead my conversations with Borges were what, in my mind, conversations should always be: about books, and about the discovery of writers I had not read before, and about ideas that had not occurred to me, or which I had glimpsed only in a hesitant, half-intuited way that, in Borge's voice, glittered and dazzled in all their rich and somehow obvious splendour."

sábado, março 01, 2008

António

O calor e a ansiedade encharcavam a face de António. Os fios que tombavam da sua testa aliavam-se ao cansaço que lhe pesava as pestanas. O suor escorregava, em gotas, pela cana do nariz, para se acamar nas covas do seu lábio superior. Acumulava-se a água, como um bigode, por cima da boca até ser sacudida por um safanão violento vindo do volante. Outros fios escorriam-lhe nas costas provocando arrepios embaraçosos que o deslocavam no banco. Habituara-se ao suor desde que começara a tomar peso, ainda antes de partir para África, mas, aquela viagem apressada, estava a transformá-lo num pano encharcado. Uma mosca enamora-se do seu ouvido esquerdo em tangentes sonoras incómodas que procurava interromper com o esgar do pescoço na direcção da janela. As mãos melosas tentavam alcançar a alavanca para abrir o vidro, permitindo expulsar a mosca e repor alguma justiça na sua temperatura corporal.
Há mais de cem quilómetros que não falava, os pensamentos ocupavam-lhe a mente, não deixando espaço para o discurso. Ao seu lado, Júlio não se atrevia a quebrar o silêncio. Noutras circunstâncias talvez o fizesse mas, desta vez, limitava-se a refrescar-se com água e a desejar que a noite anterior nunca tivesse acontecido. Preparava, há algum tempo, uma interjeição que resolvesse aquele desconforto que se adensava mas, desistia sempre no último momento. Descrevia gestos tensos, ora arrastando as mãos sujas pelas coxas, ora coçando violentamente as patilhas até que se enchessem os ombros de caspa fina. Júlio nunca fora um tipo violento, nem mesmo com os pretos em África, a quem raramente levantava a mão, mas o álcool e uma zaragata foram suficientes para o levar à vertigem que o condenou.
Aproximava-se a fronteira, forçando a paragem para que Júlio se escondesse na bagageira do Volvo. Escondeu-se por baixo de umas mantas e de uns sacos de viagem que serviriam para o disfarce, pediu mais uma vez desculpa como um cão arrependido e envolveu-se quieto. António tornou ao volante, apesar de ter ponderado abandonar o carro naquele momento. Recordou, nesta altura, a fronteira da Namíbia, que passou vezes sem conta em direcção à Africa do Sul, o calor e a poeira davam particular credibilidade a esta recordação.
Chegado à fronteira, António parqueou o carro e meteu conversa com o fiscal que se preparava para vistoriar o carro. Abriu a bagageira, onde se distinguia um pé de Júlio enroscado por baixo dos sacos. Um choque de pânico percorreu António, que se viu perdido naquele momento. Puxou as calças para cima, num gesto nervoso que muitas vezes repetia, e retomou um ar calmo. Julgando ser o pé de um morto e temendo o pior também para si, o fiscal disse a António que seguisse.
Seguiram para Tui onde ficou Júlio, em lágrimas, com algum dinheiro para a fuga. Uma semana mais tarde, ainda com dinheiro no bolso, voltou a Portugal e entregou-se à guarda.
Desenho - Andreia Dias

domingo, janeiro 20, 2008

Cidreira

Com Torga partilho sentimentos e palavras, como as seguintes do seu Diário, que podiam ser minhas...
"Coimbra, 12 de Janeiro de 1971 - E era tão fácil ter paz! A bovina, evidentemente, e a que apetece, em boa verdade, na maioria das horas. O corpo afundado no sofá, e o espírito alapardado na conformação. Sorrir, aquiescer, abanar a cabeça, fingir... As pessoas querem-nos banais, passivas, conciliantes... Pois sejamo-lo. Não vale a pena contrariá-las, ser junto delas uma presença de constante inquietação... Mas, quando tudo parece bem encaminhado, um demónio interior borra repentinamente a pintura. Numa frase, numa interjeição, num gesto, ponho fim à comédia. Tiro a máscara, e mostro o rosto impaciente, crispado, rebelde a qualquer domesticação. Resultado: Um abismo de ressentimentos à minha volta. E dá-me vontade de morrer. Em nome de um homem abstracto que tento dignificar em mim, sacrifico o homem concreto que sou, o mais vulnerável dos mortais - que a secura duma resposta pode manter, como agora, acordado e desesperado a noite inteira -, tímido, agónico, Deus sabe até que ponto necessitado em certos momentos de saborear também a cidreira da felicidade sem história"

terça-feira, janeiro 15, 2008

Fronteiras

Torga escrevia na década de 60 com um esclarecimento invulgar para os tempos que se viviam. Muitas passagens do seu Diário mostram a sua extraordinária visão. As linhas que transcrevo são particularmente visionárias, quer para 1969, quer para os dias de hoje.

"Verin, 17 de Setembro de 1969 - O gosto que o homem tem de atravessar fronteiras! A alegria que traz estampada no rosto um amigo a quem vim mostrar uma nesga de Espanha! Nunca tinha saído de Portugal. E parece que cresceu por dentro em duas horas mais do que em todos os anos que tem. Quando se transpõe um vedado nacional com tal alvoroço e proveito, é a virtualidade da participação na feira do mundo, retesada dentro de nós, que, finalmente revelada, se expande e rejubila. Se não houvesse outros argumentos a favor da fraternidade humana, bastava este."

domingo, janeiro 06, 2008

Estender a Mão ao Mundo

Agrada-me em Obama a mistura das suas raízes e a forma como tranporta essa mistura para o seu discurso. Estou fortemente convencido de que será o próximo presidente dos Estados Unidos, ou, pelo menos, tenho essa esperança. O que penso sobre a importância desta eleição está resumido nas palavras de Peter Lipovac, um professor reformado, entrevistado pelo Expresso durante um comício no Iowa:
"Consegue imaginar o que será um homem chamado Barack Hussein Obama sentado à mesma mesa com árabes? Consegue imaginar o que será um homem negro, abandonado pelo pai, a conferenciar com os países que nos desprezam? Não vê como ele vai poder estender a mão a pessoas de todo o mundo?"

domingo, dezembro 30, 2007

Fernando

Fernando apaixonara-se recentemente por um livro, era algo que lhe acontecia recorrentemente. Como era hábito, durante estes amores correspondidos, insistia em reconhecer as personagens que o enamoravam nos seus vizinhos. Ontem tinha encontrado Richard, o poeta, no vizinho do terceiro andar, de quem a doença parecia também estar a tomar conta. E, recentemente, encontrara Laura Brown em Helena do bloco B. Encontrou em Helena a infelicidade disfarçada de Laura e adivinhou que estivesse naquele momento a ler Mrs. Dalloway deitada na cama de um Hotel, preparada para acabar com tudo.
Adorava viajar, prazer que lhe havia sido furtado pelo nascimento do primeiro filho, contentava-se agora com pequenos passeios solitários ao Domingo de manhã, pela fresca, para que se não atrasasse para o almoço familiar. Saiu cedo para desfrutar da cadência cardíaca do mar de Vila do Conde ao desfazer-se nas rochas. O mar estava agitado e formava finos carneiros no areal, o compasso ritmado das ondas, perto do castelo, convidava ao mergulho no abismo a que, por certo, Virgínia não resistiria em um dos seus dias maus. Queria cansar as pernas naquele dia, ia em busca de Clarrisa, Sally e Louis por entre os veraneantes tardios de Outubro. Os vendedores desfraldavam os toldes baptizando quem passava com as águas acumuladas da geada, procurava uma florista onde pudesse esperar Clarissa antes da festa. Avistou-a ao longe, os cabelo claros, a pele luminosa de saúde e a cesta de vime para compras permitiram a sua identificação imediata. Imaginava-a já a sair da florista com uma braçada de flores e com o chapéu a cair-lhe tocado pela brisa. Passou pela florista sem entrar, talvez estivesse atrasada para encontrar Richard.
Regressou para o almoço, causava-lhe fastio aquela reunião familiar, onde pontificavam os parentescos figurões e faisões herdados de sua mulher. Por certo encontraria Rodrigo, cantor de câmara, que não se fazia rogado em contar a opulência da sua vida de artista, que contrastava com o cinzento da sua face. Cruzou-se com Helena ao chegar a casa, deslizava apressadamente nos paralelos da rua, esquivando-se aos carros mal estacionados, vinha lívida do beijo roubado a Kitty na sua cozinha.
Sentou-se, desejando falar e comer pouco, não pretendia fazer durar aquele período de sofrimento. Por momentos viu entrar na sala uma moça de seios trementes, esmagando o soalho, ostentando uma travessa fumegante e imaginou-se em Tormes preparado para partilhar com Jacinto um arroz de favas. A sua boca aguada secou-se ao ver outro conteúdo na travessa e por terem sumido os seios fartos à moça servente.

sábado, dezembro 29, 2007

Helena

Perguntou-me desdenhoso se sempre jantávamos naquele dia. Atrasei o jantar propositadamente, dava-me certo prazer vê-lo roer-se de fome enquanto rondava a cozinha impaciente, afinal, este era um acto de tortura a que julgava ter direito após anos de solidão acompanhada. Cozinhei com especial esmero naquele dia, pensei cuidadosamente no seu prato preferido, e bacalhau era o prato certo para uma ocasião tão solene. Demolhei-o durante três dias, trocando-lhe a água no final do primeiro, escolhi a mais rendilhada travessa assadeira que me tinham dado como prenda nesse ano, reguei abundantemente as mais altas postas com o mais puro azeite depois de as ter colocado sobre finas rodelas de cebola e tomate. Rodeei as postas de salsa e louro, ervas que permitem um gosto que ele muito apreciava, cozi pequenas batatas durante a tarde que coloquei na assadeira para que alourassem, levei tudo ao forno e esperei. Durante o tempo de espera desfiz duas mangas com leite condensado e gelatina seguindo a receita de mousse de manga da minha mãe. Pus a mesa com o nosso serviço e, no centro, coloquei um imponente arranjo floral que comprei nessa manhã no mercado da fruta.
Detive-me alguns momentos a observá-lo enquanto inalava à força as últimas nuvens de fumo do seu cachimbo asqueroso, dirigi-me à cozinha e esfarelei 20 dos meus comprimidos para dormir com a ajuda do coto da faca de desmancho. Juntei-os ao jarro de vinho, não bebi vinho naquela noite, não o fazia regularmente pelo que não levantei suspeitas. Comeu alarvemente com aquela forma de sorver os alimentos que me enoja, bebeu também todo o jarro de vinho. No final da refeição sentia-se cansado e foi deitar-se. Vesti o casaco, bati a porta e nunca mais voltei.
António ouviu pacientemente o relato de Helena, engasgando-se com o salivar excessivo a que não estava habituado nestas inquirições. Todo aquele discurso o inquietou, e nem a sua vasta experiência como inspector impediu a sua surpresa, principalmente tendo em conta que o corpo que estava nesse momento na cave do edifício tinha doze facadas no peito.
Nesse dia, António comprou flores que levou para casa, e deitou no caixote do lixo o cachimbo que usava desde os tempos da tropa.

segunda-feira, outubro 29, 2007

I Sing of Change

Transcrevi este poema de um painel no metro de Londres enquanto viajava entre Paddington e Piccadilly.

"I sing
of the beauty of Athens
without its slaves

Of a world free
of kings and queens
and other remnants
of an arbitrary past

Of earth
with no sharp north
or deep south
without blind curtain s
or iron walls

Of the end
of warlords and armouries
and prisons of hate and fear

Of deserts treeing
and fruitingafter the quickening rains

Of the sun radiating ignorance
and stars informing
nights of unknowing

I sing of a world reshaped"

Niyi Osundare (1947)
African Poems on the Underground

Memórias de Adriano

Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, é uma longa carta ditada pelo Imperador Adriano ao jovem Marco Aurélio, que viria a suceder-lhe no trono, numa altura em que a sua morte se aproximava. É particularmente inspiradora a seguinte passagem:
"A palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana, assim como as grandes atitudes imóveis das estátuas me ensinaram a apreciar os gestos. Em contrapartida, e posteriormente, a vida fez-me compreender os livros."

O Escritor

Yashima Khadra é o pseudónimo sob o qual escreve Mohammed Moulessehoul. Moulessehoul nasceu em Orão em 1955 e foi, até há pouco tempo, militar de carreira do exército Argelino. A sua escrita percorre os conflitos recentes no Médio Oriente com uma lucidez e um equilibrio invulgares, é assim em O Atentado e em As Sirenes de Bagdad, ambos publicado em português pela Bizâncio. O seu pseudónimo feminino permitiu-lhe escapar à censura militar, em O Escritor, Moulessehoul revela a sua identidade, conta a sua história, descrevendo-a como a fatalidade de ser escritor:
"O sofrimento não me aterrava; despertava-me, fazia-me tomar consciência da minha singularidade; eu era aquele que sabia ver, que esta va atento à dor dos camaradas. E essa coisa, que se fortalecia em mim, habitava-me justamente para me assistir nessa vocação. Não foi senão ao ler O Pequeno Polegar que a descarga se abateu sobre mim, como uma revelação que bate à porta. Era aquele o dom divino: o verbo. Nascera para escrever! Ao abrir o belo livro, ao percorrer as suas páginas de esplêndidas ilustrações, plenas de fascínio, fiquei irremediávelmente apanhado: escrever livros.
Devorei outros contos com um apetite insaciável: Branca de Neve, O Capuchinho Vermelho, A Bela Adormecida, as Fábulas de La Fontaine. Era feérico. Mas o meu fascínio, o verdadeiro, não era nem pelas histórias nem pelas personagens ou pelo talento fantástico dos desenhadores. Só o descobri ao iniciar-me, eu próprio, na escrita: estava fascinado pelas palavras... aquela junção de caracteres mortos que, entre uma maiúscula e um ponto, ganhavam de repente vida, tornavam-se frases, conjuntos, aquiriam força e espírito. Soube de imediato aquilo que mais queria no mundo: uma pena ao serviço da literatura, essa sublime bondade humana que não tem igual senão na sua vulnerabilidade; essa bondade suprema que continua a ser, ainda hoje, a última fortificação da nossa salvação, o último bastião contra a animalidade, e que, se alguma vez viesse a ceder, sepultaria sob os seus escombros todos os sóis do mundo, e então, boa-noite..."

sábado, março 03, 2007

Crónica de uma Morte Anunciada

Pedro e Pablo Vicario saíram de casa naquela noite determinados em matar Santiago Nassar, o responsável pela desonra da irmã dos dois gémeos. Fizeram questão de anunciá-lo a quem os quis ouvir, como exige este motivo para jura de morte. Passaram pelo mercado da carne onde afiaram as facas e informaram Faustino Santos da sua intenção, disseram-no também a Clotilde Armenta e a todos quantos estavam na leitaria. Em pouco tempo toda a povoação sabia do que estava prestes a acontecer, mas nem por isso fizeram o que fosse para evitar que os irmãos Vicario atingissem o seu objectivo.
Em parte não o fizeram porque acreditavam na vingança da honra de uma irmã como um motivo moralmente justo para a sentença de morte, foram por isso cúmplices silenciosos do assassinato.
Em Portugal passam-se fenómenos semelhantes ao do romance de Gabriel Garcia Marquez. Não porque vejamos a morte como única forma de vingar a desonra, nesse aspecto somos menos efervescentes do que os sul-americanos.
Existem, no entanto, crimes que por mais que nos sejam anunciados diariamente, ou até garbosamente assumidos pelos próprios, nunca verão culpados verdadeiramente punidos no nosso país, crimes como a corrupção nas autarquias ou a fraude de resultados desportivos no futebol. Na verdade, em Portugal a maioria da população não vê estes crimes como moralmente errados, ou pelo menos não lhes confere uma condenação moral relevante, sendo este o principal motivo para a sua impunidade.
Desta forma, Pedro e Pablo Vicario poderão continuar a sair de casa exibindo as suas facas e dizendo ao que vão…

domingo, janeiro 14, 2007

O Muro

George W. Bush promulgou, no dia 26 de Outubro, a lei que autoriza a construção de um muro de protecção ao longo da fronteira entre os Estados Unidos e o México. O objectivo deste muro é limitar a imigração ilegal uma vez que passará a ser mais caro e mais perigoso atravessar ilegalmente a fronteira que separa os dois países.
Esta notícia fez-me recordar o livro Fair Play - What Your Chlid Can Teach You About Economics, Values, and the Meaning of Life de Steven E. Landsburg que me foi emprestado há algum tempo por uma amiga. Este autor celebrizou-se através a sua publicação anterior The Armchair Economist e através a sua coluna Everyday Economics na Slate magazine.
A propósito da sua posição contra o proteccionismo, Landsburg conta como a sua filha Cayley, ainda uma criança, lhe perguntou a razão porque devemos tratar de forma diferenciada um trabalhador fabril de Detroit e um trabalhador fabril da cidade do México.
Na verdade não parece existir qualquer razão moral para uma diferenciação de tratamento apenas baseada no local de nascimento e em linhas fronteiriças imaginárias.

"My daugther knows that people are created equal, and that nobody's right to prosper should be altered by being born on the wrong side of an imaginary national boundary line. It would never occur to her to care more about an autoworker in Detroit that about an autoworker in Tokyo or Mexico city"

A nacionalidade apresenta-se cada vez mais como uma ferramenta de totalitarismo totalmente inaceitável...

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Auto-Regulação e Desenvolvimento

Há alguns meses encontrei-me com um amigo dono de uma empresa de calçado. Falámos acerca da sua recente visita à Índia. O objectivo dessa visita foi profissional pelo que falámos um pouco sobre as condições de trabalho industrial nesse país. Contou-me sobre as deficientes condições das infra-estruturas industriais, sobre os horários de trabalho intensos, sobre as remunerações miseráveis e sobre o trabalho infantil massificado. Nada do que que me contou foi uma absoluta novidade mas o seu relato foi particularmente marcante, provavelmente por ser composto por imagens contadas por uma pessoa que me é próxima e por se basear em memórias ainda frescas da sua viagem.
Esta nossa conversa foi concluída com uma reflexão que julgo importante, disse-me este meu amigo que, provavelmente, algumas pessoas ocidentais ao terem noção das condições em que algumas peças do seu vestuário são fabricadas teriam repulsa em vesti-las ou comprá-las.
Um artigo recente do Internacional Herald Tribune, publicado esta semana no Courrier Internacional, prova-nos que as próprias marcas ocidentais são sensíveis a esta reflexão. Este artigo descreve a rotina diária de um auditor de conformidade social na China que trabalha para grupos americanos e europeus interessados em ter uma imagem fiel das condições de produção dos seus produtos nestes países. As auditorias de conformidade social surgiram nos anos 90, no âmbito de movimentos de protesto ocorridos nos Estados Unidos. Empresas como a Nike e a Wall-Mart começaram a ser pressionadas por grupos representativos dos seus próprios clientes no sentido de melhorarem as condições de trabalho dos seus subcontratados asiáticos.
Após vários escândalos, torna-se claro que as empresas ocidentais não podem permitir-se a este tipo de publicidade. Começa a verificar-se um fenómeno que este artigo designa de paradoxal, as empresas capitalistas ocidentais empenham-se em melhorar as condições laborais na China.

domingo, outubro 29, 2006

Inconveniente

No filme Uma Verdade Inconveniente, Al Gore inicia a sua apresentação recordando um episódio da sua infância. Este episódio passa-se no seu sexto ano durante uma aula de geografia. Nesta aula, o professor de Gore mostrou aos seus alunos o mapa do mundo. Enquanto o mostrava um dos colegas de Gore levantou o braço e apontou primeiro para a costa este da América do Sul e depois para a costa ocidental de África perguntando se em algum momento estes dois pedaços enormes de terra teriam estado unidos. A sua questão estava relacionada com o recorte semelhante das faixas costeiras destes dois continentes. Como resposta o professor terá dito que era evidente que não, e que essa era a coisa mais ridícula que já alguma vez tinha ouvido. Por esta altura a teoria das placas tectónicas não era universalmente aceite em termos científicos e era desconhecida da maior parte das pessoas. O professor de Gore partiu de um pressuposto que para ele era inquestionável, os continentes são tão grandes que, obviamente, não se deslocam. Pois, na verdade, os continentes deslocam-se e em tempos estiveram unidos.

Al Gore termina esta ilustração com uma frase de Mark Twain:

“It ain’t what you don’t know that gets you into trouble. It’s what you know for sure that just ain’t so.”

Só a inconveniência nos libertará da armadilha apresentada por Mark Twain…