sábado, março 03, 2007

Crónica de uma Morte Anunciada

Pedro e Pablo Vicario saíram de casa naquela noite determinados em matar Santiago Nassar, o responsável pela desonra da irmã dos dois gémeos. Fizeram questão de anunciá-lo a quem os quis ouvir, como exige este motivo para jura de morte. Passaram pelo mercado da carne onde afiaram as facas e informaram Faustino Santos da sua intenção, disseram-no também a Clotilde Armenta e a todos quantos estavam na leitaria. Em pouco tempo toda a povoação sabia do que estava prestes a acontecer, mas nem por isso fizeram o que fosse para evitar que os irmãos Vicario atingissem o seu objectivo.
Em parte não o fizeram porque acreditavam na vingança da honra de uma irmã como um motivo moralmente justo para a sentença de morte, foram por isso cúmplices silenciosos do assassinato.
Em Portugal passam-se fenómenos semelhantes ao do romance de Gabriel Garcia Marquez. Não porque vejamos a morte como única forma de vingar a desonra, nesse aspecto somos menos efervescentes do que os sul-americanos.
Existem, no entanto, crimes que por mais que nos sejam anunciados diariamente, ou até garbosamente assumidos pelos próprios, nunca verão culpados verdadeiramente punidos no nosso país, crimes como a corrupção nas autarquias ou a fraude de resultados desportivos no futebol. Na verdade, em Portugal a maioria da população não vê estes crimes como moralmente errados, ou pelo menos não lhes confere uma condenação moral relevante, sendo este o principal motivo para a sua impunidade.
Desta forma, Pedro e Pablo Vicario poderão continuar a sair de casa exibindo as suas facas e dizendo ao que vão…

domingo, janeiro 14, 2007

O Muro

George W. Bush promulgou, no dia 26 de Outubro, a lei que autoriza a construção de um muro de protecção ao longo da fronteira entre os Estados Unidos e o México. O objectivo deste muro é limitar a imigração ilegal uma vez que passará a ser mais caro e mais perigoso atravessar ilegalmente a fronteira que separa os dois países.
Esta notícia fez-me recordar o livro Fair Play - What Your Chlid Can Teach You About Economics, Values, and the Meaning of Life de Steven E. Landsburg que me foi emprestado há algum tempo por uma amiga. Este autor celebrizou-se através a sua publicação anterior The Armchair Economist e através a sua coluna Everyday Economics na Slate magazine.
A propósito da sua posição contra o proteccionismo, Landsburg conta como a sua filha Cayley, ainda uma criança, lhe perguntou a razão porque devemos tratar de forma diferenciada um trabalhador fabril de Detroit e um trabalhador fabril da cidade do México.
Na verdade não parece existir qualquer razão moral para uma diferenciação de tratamento apenas baseada no local de nascimento e em linhas fronteiriças imaginárias.

"My daugther knows that people are created equal, and that nobody's right to prosper should be altered by being born on the wrong side of an imaginary national boundary line. It would never occur to her to care more about an autoworker in Detroit that about an autoworker in Tokyo or Mexico city"

A nacionalidade apresenta-se cada vez mais como uma ferramenta de totalitarismo totalmente inaceitável...

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Auto-Regulação e Desenvolvimento

Há alguns meses encontrei-me com um amigo dono de uma empresa de calçado. Falámos acerca da sua recente visita à Índia. O objectivo dessa visita foi profissional pelo que falámos um pouco sobre as condições de trabalho industrial nesse país. Contou-me sobre as deficientes condições das infra-estruturas industriais, sobre os horários de trabalho intensos, sobre as remunerações miseráveis e sobre o trabalho infantil massificado. Nada do que que me contou foi uma absoluta novidade mas o seu relato foi particularmente marcante, provavelmente por ser composto por imagens contadas por uma pessoa que me é próxima e por se basear em memórias ainda frescas da sua viagem.
Esta nossa conversa foi concluída com uma reflexão que julgo importante, disse-me este meu amigo que, provavelmente, algumas pessoas ocidentais ao terem noção das condições em que algumas peças do seu vestuário são fabricadas teriam repulsa em vesti-las ou comprá-las.
Um artigo recente do Internacional Herald Tribune, publicado esta semana no Courrier Internacional, prova-nos que as próprias marcas ocidentais são sensíveis a esta reflexão. Este artigo descreve a rotina diária de um auditor de conformidade social na China que trabalha para grupos americanos e europeus interessados em ter uma imagem fiel das condições de produção dos seus produtos nestes países. As auditorias de conformidade social surgiram nos anos 90, no âmbito de movimentos de protesto ocorridos nos Estados Unidos. Empresas como a Nike e a Wall-Mart começaram a ser pressionadas por grupos representativos dos seus próprios clientes no sentido de melhorarem as condições de trabalho dos seus subcontratados asiáticos.
Após vários escândalos, torna-se claro que as empresas ocidentais não podem permitir-se a este tipo de publicidade. Começa a verificar-se um fenómeno que este artigo designa de paradoxal, as empresas capitalistas ocidentais empenham-se em melhorar as condições laborais na China.

domingo, outubro 29, 2006

Inconveniente

No filme Uma Verdade Inconveniente, Al Gore inicia a sua apresentação recordando um episódio da sua infância. Este episódio passa-se no seu sexto ano durante uma aula de geografia. Nesta aula, o professor de Gore mostrou aos seus alunos o mapa do mundo. Enquanto o mostrava um dos colegas de Gore levantou o braço e apontou primeiro para a costa este da América do Sul e depois para a costa ocidental de África perguntando se em algum momento estes dois pedaços enormes de terra teriam estado unidos. A sua questão estava relacionada com o recorte semelhante das faixas costeiras destes dois continentes. Como resposta o professor terá dito que era evidente que não, e que essa era a coisa mais ridícula que já alguma vez tinha ouvido. Por esta altura a teoria das placas tectónicas não era universalmente aceite em termos científicos e era desconhecida da maior parte das pessoas. O professor de Gore partiu de um pressuposto que para ele era inquestionável, os continentes são tão grandes que, obviamente, não se deslocam. Pois, na verdade, os continentes deslocam-se e em tempos estiveram unidos.

Al Gore termina esta ilustração com uma frase de Mark Twain:

“It ain’t what you don’t know that gets you into trouble. It’s what you know for sure that just ain’t so.”

Só a inconveniência nos libertará da armadilha apresentada por Mark Twain…

It Is Our Time to Rise Again to Secure Our Future

É desta forma que Al Gore termina o seu livro Uma Verdade Inconveniente.
Com Uma Verdade Inconveniente Al Gore tem dois objectivos e é bem sucedido em ambos. Em primeiro lugar, esforça-se por fazer uma explanação clara, estruturada e convincente acerca da urgência do problema do aquecimento global. E em segundo lugar, apresenta este quadro como reversível, interpelando-nos a agir no sentido desta reversão. Este segundo objectivo é particularmente responsabilizador da geração que actualmente habita o nosso planeta. Gore refere que o empenho ambiental na resolução do problema do aquecimento global definirá moralmente a nossa geração.
Assisti ao filme há algumas semanas, a sala estava cheia e no final fui surpreendido pelos aplausos do público. Questiono-me sobre a leitura que devo dar a estes aplausos. Devo considerá-los um indicador da identificação com o problema apresentado? Serão um indicador da nossa consciência ambiental e do nosso empenhamento na resolução deste problema? O futuro irá responder-nos a estas questões e seremos julgados moralmente por isso...

sexta-feira, outubro 06, 2006

Se Isto É Um Homem

"Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara."

texto inicial do livro "Se Isto É Um Homem" de Primo Levi

quinta-feira, setembro 21, 2006

Se Isto É Um Homem

Em "Se Isto É Um Homem" Primo Levi relata o ano da sua vida passado no campo de concentração de Auschwitz, onde foi testemunha e vítima dos horrores da segunda grande guerra mundial. Acredito convictamente na verdade dos testemunhos de Primo Levi e por isso me inquietam declarações negacionistas do Holocausto. Inquietam-me também as versões alternativas dos acontecimentos de 11 de Setembro que considero terem características negacionistas equivalentes. De acordo com estas versões terá sido a própria administração norte americana a planear e executar o ataque às torres gémeas. Parece-me adequado perguntar, perante estes novelos conspirativos, que conspiração terá estado por trás dos ataques de 11 de Março em Madrid e de 7 de Julho em Londres. Terão sido planeados também pelos americanos? Pelo PSOE de Zapatero ou pelo PP de Aznar? Pelos Trabalhistas ou pelos Conservadores ingleses?

domingo, setembro 10, 2006

The Next Attack

Num artigo da The Atlantic Monthly publicado pelo Courrier Internacional são explicadas as principais razões para não ter existido outro grande atentado em solo americano após o 11 de Setembro.

"O patriotismo da comunidade muçulmana americana foi grosseiramente subestimado", desta forma, ao contrário do que acontece na Europa, o processo de recrutamento de células americanas de origem muçulmana foi um fracasso.
"Os imigrantes árabes e muçulmanos instalados nos EUA seguiram o mesmo percurso que outros grupos étnicos americanos bem assimilados e são fundamentalmente diferentes da classe muçulmana desfavorecida e mal integrada da maior parte dos países da Europa. (...) a Europa Ocidental acolhe uma população muçulmana que representa um pouco mais do dobro da comunidade estabelecida nos EUA. Mas a maior parte das medidas que provocam descontentamento e agitação - detenções, motins, actos de violência ligado à religião - são dez a quinze vezes mais elevadas na Europa do que nos EUA. O rendimento médio dos muçulmanos em França, na Alemanha ou na Grã-Bretanha é inferior ao do conjunto da população desses países, enquanto que o rendimento médio dos árabes americanos é superior ao rendimento médio americano. Em média possuem também mais empresas e mais diplomas universitários do que o conjunto dos americanos."

De acordo comeste artigo, a principal defesa anti-terrorista dos EUA é a inclusão social dos muçulmanos, "comunidade que foi, no seu conjunto, insensível ao vírus jihadista"...

Voo 93

O filme Voo 93 de Paul Greengrass é verdadeiramente notável.
Numa altura em que passam 5 anos sobre os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 multiplicam-se nas televisões peças jornalíticas que cedem a uma tentação recorrente, misturam os acontecimentos de 11 de Setembro com as suas consequências, formulando juízos de valor anti-americanos. Este filme é o contrário de todas estas peças, não cede a essa tentação e procura ser descritivo.
É normal a discussão em torno dos ataques de 11 de Setembro abarcar temas como a invasão ao Iraque ou os mais recentes raides militares de Israel no Líbano. Parece-me que o dia 11 de Setembro de 2001 pode ser discutido de forma isolada dos acontecimentos que lhe sucederam. Penso que desta forma conseguiremos ter uma ideia mais clara sobre os dois lados destes conflito.
O filme de Greengrass permite recentrar a discussão do 11 de Setembro nos seus acontecimentos, no desvio e despenhamento intencional de 4 aviões com o objectivo de matar o maior número de pessoas possível. As motivações para estes actos inacreditáveis são nublosas e pouco explícitas, mas as mortes de inocentes não são danos colaterais, são o seu principal objectivo...

segunda-feira, agosto 28, 2006

Hermes Ambiental

"It is difficult to get a man to understand something when his salary depends upon his not understanding it"

http://www.climatecrisis.net

O filme "An Inconvenient Truth", em que Al Gore (ex- futuro presidente dos EUA) nos alerta para a urgência do problema do aquecimento global, estreia em Portugal no dia 14 de Setembro.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Hermes Económico


Acerca da possibilidade de o governo bloquear os processos de oferta publica de aquisição que decorrem em Portugal, o editorial do Jornal de Negócios de 18 de Agosto refere o seguinte:

"Quando um governante toma uma decisão a defender o interesse do país, temos a certeza de duas coisas: é o interesse de alguém que está a ser protegido e somos nós, como consumidores e/ou contribuintes, quem paga essa protecção."


Hermes Político

O Público do último sábado oferece-nos um longo artigo acerca de Bill Clinton, o aniversariante do dia. Realço a seguinte passagem desse mesmo artigo:
"O primeiro baby bommer na Casa Branca revolucionou por completo a forma de se relacionar com o público: não era um homem inatingível num pedestal, mas um americano “normal” que abraçava a sua origem humilde, admitia ser um adepto de junk food, reconhecia ganhar menos do que a mulher e fazia gala de assinalar as suas preferências culturais pop (o que lhe valeu a designação de “Presidente MTV”). Um dos seus feitos mais recordados foi o seu improviso de saxofone no programa de Arsenio Hall – a escritora Toni Morrison viria a classificá-lo como o primeiro Presidente preto”.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Hermes Iluminista

Em entrevista ao El País e à Visão, Al Gore refere Jürgen Habernas para sustentar o seguinte:
“As bases da democracia moderna foram criadas durante o Iluminismo e baseiam-se no domínio da razão. O Iluminismo, em si mesmo, é um produto do novo sistema de informação que nasceu do aparecimento da imprensa, porque deu a cada indivíduo a capacidade de se juntar ao debate político; permitiu às pessoas utilizar o conhecimento para mediar entre riqueza e poder, rompendo a estrutura feudal que tinha sido construída em torno do monopólio de informação que a Igreja exibia. Actualmente, a meritocracia das ideias criada pelo iluminismo através da palavra impressa foi ultrapassada por uma nova revolução. Gutemberg chegou há 500 anos. Há 50 anos chegou a televisão como força dominante. Isto significou um regresso aos mosteiros medievais, porque a fonte das mensagens ficou nas mãos de poucos. Agora, o indivíduo já não pode intervir no debate por cima dos meios de comunicação dominantes.
A Internet está a começar a desafiar a televisão e representa para mim a esperança de recriar o debate da democracia.”

domingo, agosto 06, 2006

Hermenêutica

Arte ou perícia de compreender e interpretar significados escondidos...

Numa definição mais restrita, método ou sistema de interpretação e compreensão de textos biblicos (por extensão de qualquer outro texto, histórico, jurídico, etc.) .
Wikipedia, Dicionário da Lingua Portuguesa Porto Editora

Hermes

Mensageiro dos deuses, responsável por trazer os sonhos aos mortais...
Wikipedia, Encyclopedia Mythica

Hermes

Deus dos pastores, dos oradores, da literatura, da poesia e dos atletas. Deus da perícia dos ladrões e mentirosos...
Wikipedia, Encyclopedia Mythica

segunda-feira, julho 31, 2006

Hermes

Hermes, na mitologia grega filho de Zeus e da ninfa Maia, deus do comércio, das fonteiras e dos viajantes que as cruzam...
Wikipedia,Encyclopedia Mythica